<em>Chantagens</em>
No «Público» de 22 de Outubro um título informa que um grupo de pessoas «volta a chantagear vendedores de apartamentos». Os mecanismos desta «chantagem» são extraordinariamente elucidativos.
Os acontecimentos parecem saídos de um filme de Kusturica, como veremos: trata-se de pessoas que dão uma quantia em sinal para a compra de apartamentos de luxo situados em condomínios fechados, e que depois, ao que diz a notícia, obrigam o vendedor a rescindir o contrato, devolvendo-lhes o sinal a dobrar. Como conseguem este resultado num mercado onde os principais aldrabões não costumam ser os compradores? Conseguem-no pelo simples facto de serem ciganos.
Quem assina o contrato-promessa é uma senhora «loura e de olhos azuis»(sic). Depois de assinado o contrato, essa senhora pede as chaves para mostrar a casa aos familiares. No «Público», um infortunado «construtor» descreve a cena: «crianças e adultos invadiram o espaço do condomínio privado, fazendo uma grande algazarra. Os miúdos, vestidos, atiraram-se para dentro da piscina, e os adultos puseram a música em alto som, etc.»
É este, portanto, o conteúdo da «chantagem»: o dinheiro, que não tem cor nem raça enquanto é transportado por uma senhora «loura e de olhos azuis», torna-se uma forma inconveniente de adquirir apartamentos de luxo se quem o transporta for uma família de ciganos, e o «construtor», se não quer ver debandar a restante clientela, vê-se na obrigação de o devolver com juros.
Como fazem estes ciganos a «indecente chantagem»? Fazem-na não pelo facto de serem ciganos, mas sobretudo agindo da forma que sabem espelhar o preconceito racista de que são alvo. Não falta nada para sublinhar a diferença a traço grosso: a balbúrdia, a algazarra, as ameaças com facas, as crianças ranhosas na piscina, talvez até alguma carroça puxada a burro.
E, deste modo, os promotores dos condomínios privados tornam-se inevitáveis vítimas dos próprios pressupostos em que floresce o seu negócio: o que vendem é um espaço social e culturalmente reservado e homogéneo. O valor principal do que vendem não é a qualidade da construção ou da arquitectura: é a garantia da segregação.
Os condomínios privados são uma forma devastadora de anti-cidade. Por pouco recomendáveis que sejam os meios e os fins destes grupos de ciganos, eles representam a exuberante e festiva denúncia dos mecanismos de uma realidade muito pior do que a sua «chantagem».
Os acontecimentos parecem saídos de um filme de Kusturica, como veremos: trata-se de pessoas que dão uma quantia em sinal para a compra de apartamentos de luxo situados em condomínios fechados, e que depois, ao que diz a notícia, obrigam o vendedor a rescindir o contrato, devolvendo-lhes o sinal a dobrar. Como conseguem este resultado num mercado onde os principais aldrabões não costumam ser os compradores? Conseguem-no pelo simples facto de serem ciganos.
Quem assina o contrato-promessa é uma senhora «loura e de olhos azuis»(sic). Depois de assinado o contrato, essa senhora pede as chaves para mostrar a casa aos familiares. No «Público», um infortunado «construtor» descreve a cena: «crianças e adultos invadiram o espaço do condomínio privado, fazendo uma grande algazarra. Os miúdos, vestidos, atiraram-se para dentro da piscina, e os adultos puseram a música em alto som, etc.»
É este, portanto, o conteúdo da «chantagem»: o dinheiro, que não tem cor nem raça enquanto é transportado por uma senhora «loura e de olhos azuis», torna-se uma forma inconveniente de adquirir apartamentos de luxo se quem o transporta for uma família de ciganos, e o «construtor», se não quer ver debandar a restante clientela, vê-se na obrigação de o devolver com juros.
Como fazem estes ciganos a «indecente chantagem»? Fazem-na não pelo facto de serem ciganos, mas sobretudo agindo da forma que sabem espelhar o preconceito racista de que são alvo. Não falta nada para sublinhar a diferença a traço grosso: a balbúrdia, a algazarra, as ameaças com facas, as crianças ranhosas na piscina, talvez até alguma carroça puxada a burro.
E, deste modo, os promotores dos condomínios privados tornam-se inevitáveis vítimas dos próprios pressupostos em que floresce o seu negócio: o que vendem é um espaço social e culturalmente reservado e homogéneo. O valor principal do que vendem não é a qualidade da construção ou da arquitectura: é a garantia da segregação.
Os condomínios privados são uma forma devastadora de anti-cidade. Por pouco recomendáveis que sejam os meios e os fins destes grupos de ciganos, eles representam a exuberante e festiva denúncia dos mecanismos de uma realidade muito pior do que a sua «chantagem».